sexta-feira, 4 de julho de 2014

A evolução dos Super Sentais - parte 7

Sétima fase - 2001/2005_ Gaoranger, Hurricanger, Abaranger, Dekaranger, Magiranger

Uma evolução com revolução. Esta fase, desencadeada pela virada do milênio, não poderia nos reservar menos que isso. Ainda que fossem muitos os atributos inovadores, nada chamaria tanta atenção aqui quanto a grande recriação da estética visual, profunda o suficiente para ameaçar toda a aura clássica que os Super Sentais carregavam desde Goranger. Nessa mesma trilha, os roteiros a serem criados também não ficariam ilesos às novas transformações. Depois de passarem cerca de 16 anos tentando "prever o futuro" através de suas histórias fantasiosas, era necessário agora observar melhor o presente_ pois o século XXI já era algo real. Por coisas assim, essa fase pode ser vista como a mais delicada do processo de desenvolvimento do gênero. É a partir daqui que percebemos a maioria das mudanças em relação a tudo que vimos antes. E é a partir daqui também que teremos muito mais dificuldade para perceber as mudanças em relação a tudo que ainda virá depois.
Mudanças estas que quase não influíam do que já se conhecia dos procedimentos de filmagem. A carta na manga da vez era o pós-produção. O abandono das edições em película após Timeranger deixaria a série seguinte, Gaoranger, à vontade o suficiente para demonstrar que o uso do GFX como substituto traria benefícios muito além da gama de efeitos especiais mirabolantes que todos aguardavam. Isso porque as possibilidades da computação gráfica eram muitas.
Os Power Animals de Gaoranger (2001), mechas criados 
através de recursos de animação: forma e presença
Além da geração de imagens irreais para o olho comum, os retoques em pontos importantes das sequências editadas ampliavam a nitidez das cenas e davam forma e presença para itens que recorriam à animação_ caso dos Power Animals de Gaoranger, os Bakuriyus de Abaranger e muitos outros similares. A cada recriação, ao invés da habitual colagem de película, um conjunto de pixels da tela era tratado até chegar a seu objetivo, modelando uma área da imagem e se ajustando a outras. Posteriormente, o surgimento de placas de vídeo e processadores mais poderosos iriam aprimorar mais ainda esse trabalho, vasculhando e tratando áreas cada vez menores de pixels. Quanto menor a área, maior o realismo que a cena ganharia. A evolução, além de complexa como nunca, passaria a ser traçada por uma linha muito tênue. O novo e o obsoleto seriam mais fáceis de serem vivenciados do que simplesmente percebidos.
Justamente por causa disso eu tive grande dificuldade para determinar o limite que daria para esta fase, mesmo analisando profundamente algumas mudanças_ todas sutis demais para garantir uma alteração convicta no "clima" das séries. Pensei muitas vezes em isolar Gaoranger e Hurricanger das demais. Porém, se por um lado eles são parecidos em aspectos de projeção, por outro exibem vários recursos que ainda podem ser encontrados até Magiranger (como o nível de velocidade numa simulação de voo, na representação gráfica de um gattai, etc). Também acho que seria meio injusto com alguns leitores que esperaram mais de um ano por uma nova parte desta matéria receberem uma visão sobre apenas dois Super Sentais. Mas, de qualquer forma, é importante que saibamos de antemão o quão difícil será, a partir de agora, a divisão de fases dentro daquilo que estamos habituados.
Por meio de um inédito processo gráfico, gattais como o
do AbarenOh (de Abaranger, 2003) deram fim à 
mecanização lenta de muitos robôs guerreiros do passado
O controle de excessos foi o maior desafio para os profissionais que estavam produzindo sob a nova tecnologia. Visivelmente deslumbrados com as possibilidades do GFX, os criadores aplicavam graphics em quantidade muito superior a hoje, mesmo cientes do estágio ainda cru dessa conquista. O realismo foi preterido por diversas vezes para a velocidade, seja no desempenho de uma arma, seja na mobilidade de um mecha. Um exemplo nítido disso pode ser visto no gattai do AbarenOh, cuja formação e combinação de partes é feita do início ao fim por meio de processo gráfico. Quando passa para o plano real (ou seja, com dublês e maquetes), as diferenças saltam aos olhos, num grau não muito menor que o provocado pelos efeitos falsos e simples dos primórdios. O que era lento e mecanizado passa a ser rápido e fantástico, imediatamente fazendo nascer um obstáculo chamado continuidade. Ao longo dessa fase, esse mal foi administrado como que em cima de uma gangorra, já que só Hurricanger e Dekaranger se esforçaram na maneira de manobrar as novidades da computação.
Representante de respeito entre os movies do gênero,
"Gaoranger Vs Super Sentai" (2001) reafirmou o potencial
 das produções derivadas como nova fonte de lucros
Das outras conquistas, foi nesta fase que se descobriu o cinema como uma grande fonte de lucro. Combinado ao já tradicional câmbio de produtos manufaturados, o cinema seria outra garantia para que marcas como o Super Sentai não precisassem ser exportadas com tanta frequência (só uns poucos países asiáticos, como as Filipinas, ainda seriam compradores). Algo triste para alguns fãs saudosistas do antigo eixo Brasil-França-etc, mas fundamental para o desenvolvimento de roteiros com mais liberdade para tratar de aspectos culturais do Japão, sem medo de soar estranho aos olhos de outras nações. Pouco mais à frente, o merchandising seria outro beneficiário desse processo "Sentai 100% Japan", quase sempre tendo em seus filmes para cinema o foco da propaganda. Hoje em dia, cada nova série Sentai rende, no mínimo, dois filmes para cinema, com seus personagens aparecendo ao menos em quatro. Produções extra podem surgir ainda na forma de especiais para TV, que muitas vezes servem como laboratório no experimento de novas tecnologias. Dentro disso, "Gaoranger Vs Super Sentai" ficaria marcado como um modelo de produção extra bem sucedida. A comemoração dos 25 anos de criação do gênero teve uma homenagem à altura, já que mostrou diferenças visuais gritantes na projeção de efeitos especiais, até para séries com menos de dois anos da exibição original.

Compromisso com a emoção
Claro que tanta inovação teria um preço. Para boa parte dos fãs, alguns Sentais desta e da próxima fase eram bem menos envolventes como um todo, se comparados a outros anteriores. Já vi diversas críticas a superficialidade dos roteiros de Gaoranger e Hurricanger, que se apoiaram em temas já batidos. Uma verdade parcial, já que o primeiro soube compensar o retorno ao tema "animais" com um núcleo nada desprezível de vilões, enquanto que o segundo retornou ao tema "ninja" incluindo aquilo que mais faltou em Kakuranger: a rivalidade entre duas escolas.
Em Gaoranger, a hierarquia flutuante dos Highness Duke dispensava uma liderança específica para os Orgs. E em Hurricanger, por várias vezes os irmãos Goraiger pareceram mais próximos do maligno Império Jakanja do que do trio de heróis. Na criação, Gaoranger ainda contribuiria com uma fantástica safra de monstros criativos (referência ainda hoje) e com uma trilha sonora que pode ser considerada a última a ter seguido a linha inovadora de Timeranger (exemplo notável disso foi a música assumidamente lenta da ending).
Amigos ou inimigos? As intenções reais dos personagens,
suas posições hierárquicas e a relação com os heróis
constantemente foram grandes pontos de interrogação
para os fãs ao longo desta fase
Já Hurricanger traria também outra novidade forte o suficiente para perdurar até os dias atuais: a partir do episódio 35, essa série passou a apresentar uma inédita introdução à aventura do dia, antes mesmo da abertura. Esse novo modelo de exibição prévia passaria a ser de grande utilidade para seriados futuros_a se notar por Dekaranger. No Sentai policial, por exemplo, ele serviria para apresentar aos espectadores os detalhes iniciais do caso a ser resolvido por Ban e seus companheiros_ algo que, de certa forma, ajudava a segurar a atenção de quem começara a assistir o episódio em questão.
Mas, no meu modo de ver, o que realmente prendia o espectador a acompanhar esses seriados se concentrava, basicamente, no novo protótipo que estava sendo desenvolvido para as narrações preliminares das tramas e seus grandes momentos. A partir daqui, passou a ser certeza que o esquema habitual visto até então nos episódios iniciais já havia desmoronado. Livres da obrigação de fazer apresentações e narrar origens_ algo que tomava quase todo o tempo de duração deles_, os episódios de estreia passariam a ter mais autonomia para se concentrar em itens como a ação e a fotografia, sempre em busca da velha máxima "a primeira impressão é a que fica". Fatos corriqueiros e biográficos seriam, a partir de agora, diluídos ao longo de todo o seriado, aleatoriamente e de acordo com as circunstâncias. Essa originalidade sobre as estreias pode ter se consumado aqui, mas não devemos ignorar que na fase anterior Gingaman já havia ajudado a estabelecer um novo padrão de ritmo para os episódios iniciais desse gênero, ampliando o número de acontecimentos relevantes num curto espaço de capítulos. Algo que também já havia sido feito na quarta fase, com Liveman, ainda que sem encontrar continuidade pelos dez anos seguintes.
Momento máximo nos episódios de Abaranger, a elevação
dos Dino Guts demonstrava força e beleza irretocáveis:
emoção concentrada
A expectativa dos fãs por novas surpresas a cada episódio era muito maior do que antes e ainda se somava a emoção que essas mesmas surpresas poderiam incluir. Isso porque, independente do quão monótonas fossem, as séries desta fase sempre reservaram ao menos um momento de emoção especial a quem acompanhasse assiduamente seu desenrolar. Exemplos disso seriam a chegada de novos Power Animals em Gaoranger, a união definitiva dos Hurricanger com os Goraiger, simbolizada no Fuuraimaru, os momentos de elevação dos Dino Guts em Abaranger ou a primeira luta de Doggie Krugger como Deka Master. Como não era possível prever quando aconteceria algum momento especial, nem tampouco quando alguma origem seria revelada (ou explicada), a regularidade na frente da telinha passou a ser quase um compromisso de qualquer espectador.
Tal fidelidade, no entanto, era sempre recompensada. Nunca antes houveram arcos tão complexos e bem-acabados como os vistos em Gaoranger e Magiranger, cujos desfechos são tão ou mais admiráveis do que a conclusão final dos próprios seriados. Tanto que foi através de um desses arcos_ o da saga de Rouki, em Gaoranger_ que mais uma evolução profunda foi concretizada na franquia. Na história, um guerreiro de tempos antigos sofria por carregar uma maldição conhecida como "Mal dos Mil Anos". Esse mal só é disseminado após a derrota do Highness Duke Ura na batalha que deu origem ao Gao Icarus, um robô de combate cuja agilidade no voo superava em muito a do Wing Mega Voyager (de Megaranger, 1997). Pincelada pela criação gráfica, essa evolução resultou na combinação perfeita do pioneirismo do Dai Robotto (de Battle Fever J) com a mágica do Variblune (do visionário Goranger). Reparem bem como foram necessários mais de 20 anos para uma evolução desse porte num dos itens mais importantes dos Super Sentais. Após breve pausa, os robôs gigantes voadores teriam seu representante também em Dekaranger, e se tornariam habituais em pouco tempo.
Lutando ao lado de duas escolas rivais, o Shurikenger
(de Hurricanger, 2002) foi um dos beneficiados pelo
novo fôlego de qualidade dado aos extra-rangers
nesta fase dos Super Sentais
Tanto quanto isso, o bom trabalho que os extra-rangers tiveram desde o início ganhou um novo impulso de criatividade nesta fase. Bem diferente de hoje, onde eles desempenham papéis cada vez mais padronizados e previsíveis, naquela época as sagas e origens dos membros suplentes continuavam surpreendendo. Mesmo aqueles que não podem ser considerados como o "guerreiro número 6" oficial da equipe (caso do Abare Black), provam que evidentes esforços foram feitos nesta fase especificamente para eles. Hurricanger, por exemplo, foi rebuscar a fórmula do Sentai de três membros lá na década de 80 para ter como inserir depois os Goraiger, seguidos pelo Shurikenger_ o único elo que unia a inicialmente conflituosa relação entre as escolas Hayate e Ikazuchi. Já a personalidade rebelde que sempre foi clichê em muitos extras de antes e de depois de Abaranger ultrapassou todos os limites na figura do Abare Killer. Suas atuações mais marcantes se resumiam à obsessão que ele tinha em estabelecer jogos comparativos de poder contra os membros principais, quase sempre tomando-lhes os Bakuryus e desafiando os limites de sua própria vida. Após ele, os extras de Dekaranger e Magiranger nasceriam com mais tino comercial. Deka Break e Magi Shine eram como um suporte fixo para vários outros rangers que teriam aparições esporádicas e bem menos frequentes, mas suficientes para gerarem produtos derivados de suas imagens.
Esse mesmo talento empreendedor permitiu que Gaoranger criasse um sortimento maior de mechas e, com isso, inovasse ainda mais uma vez junto ao campo dos robôs de combate. Novas combinações poderiam ser feitas agora apenas para armar o guerreiro gigante, ao invés de só dar-lhe um corpo básico. Originalmente, essas combinações são chamadas de busou, e seguem sendo muito importantes para os Super Sentais dos dias atuais. O primeiro mecha busou da história foi o Gao Elephant, conquista da Gao White. Quando combinado ao Gao King, desempenhava a função de espada e escudo, após dividir-se em dois_ gerando o Gao King Sword and Shield. Tão surpreendente quanto isso seria a possibilidade de alguns mecha busou do futuro terem utilidade diferente em alguns robôs secundários, aí já como algum membro ou parte do corpo do mesmo.

Guerra, romance e influência
Eu já falei por aqui sobre a criatividade na concepção dos monstros como um dos grandes trunfos de Gaoranger. Pois um exemplo prático disso pode ser visto também em Abaranger. O Torinoid de nome Yatsudenwani conquistou os fãs tanto quanto os heróis, o que fez dele um dos poucos monstros guerreiros a ter um papel longo e relevante numa série Sentai. Ao invés de ser destruído em um ou dois episódios, o bicho_ mistura de jacaré com telefone_ foi mantido na história para nos fazer rir, seja servindo de escravo aos caprichos do Abare Killer, seja paquerando continuamente a Ranru/ Abare Yellow.
Mais do que antes, os monstros da semana mereceram atenção especial nesta fase do gênero Super Sentai.
Monitor Org (no quadro da esquerda, ao lado do Highness Duke Rasetsu) foi um exemplo de criatividade
em Gaoranger (2001), enquanto que Yatsudenwani (à direita), inesperadamente, conquistou fãs e espaço
em Abaranger (2003)
Abaranger ainda dá destaque a busca de um equilíbrio aparentemente impossível entre duas Terras (Dino Earth e Another Earth). Numa complexa história, narra que os dinossauros não foram extintos, e sim separados de nós através de um universo paralelo, gerando inclusive descendentes meio-humanos. Este é o caso de Asuka, o Abare Black. Como guerreiro, ele pode ser considerado o primeiro comandante de Super Sentai a lutar, efetivamente, ao lado da equipe que apoiava. Como pessoa, o romance complicado que ele sonhava manter com Mahoro_ sua noiva prometida da Dino Earth_ foi um raríssimo modelo de subtrama bem sucedida no gênero. Em meio a isso, a figura de Asuka continuava contribuindo (mesmo sem querer) para que a antes intocável influência dos líderes Red de Super Sentais seguisse declinando_ uma sina iniciada na quinta fase, através do desempenho da Ninja White Tsuruhime, em Kakuranger (1994), e reforçada na fase seguinte, com a Time Pink Yuri (de Timeranger, 2000).
O AbaRed fortalecido pela forma AbareMax:
domínio dimensional e voz alterada no resgate
ao prestígio dos líderes Red de Super Sentais
Mas, para que a tradição não fosse ainda totalmente esquecida, quis a sorte que uma das maiores inovações trazidas especificamente por Abaranger beneficiasse o guerreiro Red da história acima dos demais. A forma AbareMax do AbaRed foi o primeiro upgrade oficial em um Super Sentai. Através dele, seu usuário Ryuoga Hakua ganhava uma força descomunal, criava uma dimensão paralela para lutar (o MaxField) e até sofria alterações na voz, provocadas pelo excesso de poder que a forma lhe concedia. No ano seguinte, os upgrades reapareceriam em outra versão (a Dekaranger S.W.A.T. Mode), que já tinha o mérito de fortalecer a equipe completa. Ainda hoje as séries do gênero dispõem de liberdade para decidir se seus upgrades serão exclusivos a um membro (geralmente, o Red) ou distribuídos por igual entre os guerreiros principais do time.
Mesmo sendo difícil apontar pontos negativos em Abaranger, acho uma pena que, até o presente, essa série ainda não tenha ganho uma legendagem em português com a qualidade que merecia_ isso, logicamente, no meu ponto de vista_, principalmente no que se refere aos primeiros dez episódios. Para uma compreensão íntegra, eu recomendaria a tradução em inglês, cuja solidez é fundamental na ligação com o final do seriado_ para mim, um dos finais mais bonitos e recompensadores que já vi em tokusatsu.
Em 2004, Dekaranger teve a ousadia de apostar na queda de uma tradição até então intocável nos Super Sentais. Pela primeira vez, nenhum império ou organização vilã iria ameaçar a paz da Terra. Como policiais, as missões a serem cumpridas pelos Dekaranger pediam mais dinâmica do que aquele padrão poderia oferecer_ a mesma dinâmica que foi a grande ausência (e único defeito) no excelente GoGo V cinco anos antes.
A dinâmica de Dekaranger (2004) só foi possível graças a
uma grande ousadia na concepção do núcleo de vilões
Assim, com uma equipe que combatia apenas alienígenas criminosos, arruaceiros e algumas outras surpresas, Dekaranger conseguiu ser envolvente do início ao fim. A própria falta de uma padronização para os inimigos do esquadrão abria espaço para uma imprevisibilidade tentadora. A figura do Agente Abrera_ o único vilão frequente da trama, que contratava capangas de todo o universo para atingir intencionalmente os S.P.D._ pode ser comparada, no máximo, à da Bruxa Bandora, de Zyuranger. Mas lembremos que até ela, apesar de sua organização não ter um nome formal, dispunha de vários servos diretos e dedicados_ o que já é suficiente para configurar uma quadrilha do mal.
Outro exemplo de evolução rápida que poderia separar Dekaranger dos demais Super Sentais desta fase está no surpreendente Deka Wing Robo. Se Gaoranger inovou trazendo os mecha busou com utilidade de armas e acessórios, agora até o próprio robô de combate era capaz de se converter em um finalizador_ no caso, o Deka Wing Cannon.

Irmãos coragem
Super Sentais em que toda a equipe era formada por irmãos ainda era algo pouco usual até a metade dos anos 2000. Um dos poucos esquadrões assim até então havia sido Fiveman (1990), cujos membros não chegaram a ficar marcados como referência de simpatia, e menos ainda como ícones a ser espelhados. Mas o retorno a ideia teve maior êxito em 1999, com GoGo V, e soou ainda melhor quando combinado ao mote de Magiranger, série que deu tanta importância ao poder da coragem de seus integrantes quanto ao seu tema inovador_ a magia. Diante da grande fatalidade que se confere nos episódios introdutórios, acredita-se, pela lógica, que só mesmo irmãos de sangue, com seus laços além da suposição de terceiros, poderiam superar a dor da perda de uma mãe com luta e aprendizado.
Os irmãos Ozu lutam para conquistar um novo feitiço em
Magiranger (2005): o poder da coragem como meio de
superação individual
O ponto forte de Magiranger é justamente a forma intensa e diferenciada com que trata a palavra coragem. Aqui, ela deixa de ser um mero item básico de qualquer herói de tokusatsu para ganhar um status de suma importância nos fatos a se desenvolverem. Cada aventura era capaz de se reinventar na saga dos irmãos Ozu, que conquistavam um novo feitiço para ser usado na luta contra os Infershia a cada gesto que fomentasse sua coragem individual. Coletivamente, eles se complementavam a ponto de escreverem uma nova página na história dos Magos Lendários, contada a partir de meados da série. Esse universo de fantasia traria também surpresas na relação dos protagonistas com os vilões e uma aplicação consciente da adição de elementos vitais do planeta na composição dos guerreiros_ algo que sempre garantiu muito potencial para produções similares.
Curiosamente, a mesma coragem que tanto se destacava no poderio dos Magiranger seria importante também para a vida real dos criadores, produtores e roteiristas que realizaram os cinco Super Sentais desta fase que definimos aqui. Observando-os a partir dos dias atuais, não nos resta dúvidas sobre o quanto essa coragem foi essencial para uma revolução evolutiva como esta fosse, enfim, consolidada.

Links para partes anteriores da matéria:
Parte 1 (de Goranger a Denjiman);
Parte 2 (de Sun Vulcan a Dynaman);
Parte 3 (de Bioman a Maskman);
Parte 4 (de Liveman a Zyuranger);
Parte 5 (de Dairanger a Carranger);
Parte 6 (de Megaranger a Timeranger).

terça-feira, 3 de junho de 2014

Yui Asaka - Três fases de uma carreira

Um episódio que ocorreu comigo em determinada fase de vida serve para ilustrar um pouco o motivo pelo qual eu releguei a fabulosa Yui Asaka_ cantora pela qual tenho paixão intensa_ à modesta segunda colocação entre as minhas favoritas no universo J-Pop. Eu tinha 20 anos e estava há poucos meses de me formar em piano clássico, após quase uma década de estudos e com um aprimoramento em curso. Preocupado com o que eu via no cenário musical ao meu redor, procurei minha professora mais confidente e perguntei: "Como poderei ser um professor de piano confiável se detesto Mozart e Beethoven?". Parecendo ter a resposta na ponta da língua, a professora nem hesitou para me responder: "Mozart a gente aprende a gostar de criança. Mas Beethoven, a gente precisa compreender além da música dele, e isso você só deverá conseguir quando tiver mais de 50 anos de idade". Hoje em dia continuo detestando Mozart, mas felizmente não precisei esperar tanto para compreender Beethoven além de sua música. Tanto que a quantidade de sonatas que já tenho dele (na maioria interpretadas pelo célebre pianista Artur Schnabel, entre 1932 e 1935) causa espanto até em minha mãe_ o que deve significar que eu gosto.
Como experiência musical é uma coisa só_ e sim, vale para o clássico e para o pop com a mesma proporção_, sempre me pareceu claro como a carreira da Yui se divide em três fases: a inicial, a de seu auge, e a mais artística, em que ela buscou exibir sua madurez através de experimentos diversos completamente atípicos para quem a havia acompanhado até então. E é uma pena que essa terceira fase eu ainda não consegui compreender. Tal como um "Beethoven nos meus 20 anos", o máximo que consigo definir dessa fase hoje é como uma fase de declínio, e o principal motivo da Yui figurar atrás da Yuka Onishi (essa sim, com uma carreira cheia de regularidade) entre minhas cantoras top.
A fase inicial da carreira da Yui Asaka foi marcada por sua postura de "Cute Girl". Em outras palavras, ela acertou desde o início. Querer se lançar como cantora pop feminina no cenário fonográfico japonês era algo complicadíssimo num ano como 1985. Afinal, o Oniyanko Club estava no topo da fama, recheado de garotas da mesma faixa etária da Yui (15/ 16 anos), com as mesmas aspirações que ela (incluindo o visual e o comportamento), e, não raro, debandando para tentar uma carreira solo. Sem falar que, na memória musical dos japoneses da época, ainda ecoava o som das Pink Ladies. Mas, apostando numa fofura que ela tinha de sobra_ e melhor, que era só dela_, Yui conquistou o Oriente, e é capaz de nos comover ainda hoje, sempre que vasculhamos seus primeiros vídeos e discos. Mesmo sabendo que hoje ela já é uma mulher (lindíssima, justiça seja feita) de 44 anos, ainda dá vontade de levar para casa aquela garota de olhos mágicos, baixinha que parece caber na palma da mão, e com bochechas enormes que dobram de tamanho a cada vez que ela sorri. Cantando frases como "Hey! Little boy, ai shite ru!", ela se projetou irresistível como poucas outras.
Para os céticos que poderiam achar que Yui era só aquilo, o lançamento de seu primeiro single "Natsu Shojo", de 1985, provou que sim, ela sabia lidar com música. Ainda no mesmo ano, "Futari no Moon River" era mais um exemplo de música de quem sabe o que faz, pois já mostrava os primeiros traços de uma composição mais elaborada. E no início de 1986, "Yappashi... H!" trouxe uma surpresa ainda maior, ao apostar com sucesso num hábito já ultrapassado da década anterior, reciclando-o e atualizando-o: o uso de vocais de apoio infantis. Ao mesmo tempo, o hit refletia um traço de personalidade que acompanharia a cantora em todo o restante dessa sua fase de início, que é o sonho de uma garota em se tornar logo mulher. "Yappashi... H!" é uma música cheia de doçura e sem qualquer apelativo. Mas, indiretamente, não deixa de ser um pouco safadinha, já que a letra "H" isolada tem para os japoneses uma conotação similar ao "X" para os americanos.

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Esse começo promissor na carreira da Yui Asaka rendeu muitas outras músicas boas, distribuídas pelos álbuns "Crystal Eyes", "Star Lights" e "Rainbow". Mas na minha visão, foi o lançamento do single "Complex, Banzai!", de maio de 1986, que melhor representou o ápice dessa fase "Cute Girl" da Yui. De tão notável, a faixa chegou a ganhar um remix para ser incluída no álbum "Star Lights" (1987). Ainda no final de 1986, Yui foi convidada a viver o papel principal na terceira temporada de Sukeban Deka_ série que alguns fãs de tokusatsu consideram como tal. E daí fica interessante notarmos como o amadurecimento de sua personagem no seriado se iguala ao seu amadurecimento artístico, que estava em andamento.
 Interpretando Yui Kazama, uma menina simples do interior que respondia a tudo e todos com um sorriso no rosto, ela logo passa a ser reconhecida mais por sua força e determinação. Sem medir esforços, não hesita em usar todas as suas habilidades ninja para combater a inimiga Sho, líder do temível Clã Kage. Luta acreditando em si e nas irmãs até o fim, superando as piores desconfianças que chegam a recair sobre ela em determinado momento da história. Nessa série, Yui atuou ao lado das também cantoras Yuka Onishi, Yuma Nakamura e Satomi Fukunaga_ esta, a mais bem-sucedida entre as ex-Oniyanko.
O convívio com essas artistas pode pode ter sido determinante para que Yui enxergasse um esgotamento em sua fase inicial e começasse a almejar coisas maiores. E as primeiras evidências disso surgiram antes da exibição do episódio final da trama. O lançamento do single "Niji no Dreamer" (1987) foi, na minha opinião, o ponto de partida para uma nova fase na carreira de Yui Asaka. Muitos fãs devem ter se admirado ao ouvir o refrão dessa música, onde a menina fofinha e ingênua de outrora soltava a voz como nunca antes, mostrando como podia libertar-se da timidez emocional sem medo de desafinar.
A partir daí, outros momentos de igual intensidade na música de Yui_ como o refrão de "True Love", a base rítmica de "Starship" ou o clímax de "Trial"_ soavam aos ouvidos dos fãs como se a cantora apelasse por algo do tipo "Eu quero liberdade!". O sentimento libertário é uma das mais marcantes da música pop dos anos 80, e podemos dizer que foi através dele que Yui começou a se entregar de corpo e alma àqueles conceitos.
Pouco tempo depois de "Niji no Dreamer", o grande sucesso que Yui obteve com o lançamento do single "C-Girl" confirmou que a cantora estava no caminho certo. Já com 18 para 19 anos, ela queria, de fato, se sentir mais mulher do que garota. Esbanjou sensualidade de corpo e de olhar no videoclipe de sua "Cry On", faixa integrante do mesmo álbum que abrigou a reedição do single (o "Candid Girl", de 1988). Do mesmo disco, presenteou os fãs com algumas pérolas que demonstravam como Yui já tinha habilidade na nova fase pela qual optara. A fantástica "Heartbreak Bay Blues", por exemplo, comprova isso. Tudo para que, no ano seguinte, ela chegasse ao que eu considero o auge, não só dessa fase como de toda a sua carreira, com o lançamento do álbum "Melody Fair".

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Além de fabuloso e emocionante, foi um álbum que só surpreendeu, já que nenhum outro antes juntava singles de tamanha importância como "Cecile", "Melody" e "True Love". Além disso, essas e outras músicas do disco exibiam riqueza e complexidade de composição, tanto em forma e harmonia quanto em ritmo e melodia. Toda essa fase seria coroada por mais um papel de destaque na carreira da Yui atriz, que foi o da protagonista do filme "Yawara!", de 1989. A produção foi o live-action derivado do mangá e do anime sobre uma judoca que vai às olimpíadas de Barcelona à sombra do avô. Tal trabalho refletiu maravilhosamente na música da artista. Além do single "Neverland" (tema principal de Yawara), a ambientação espanhola da trama deu à "True Love" uma série de harmonizações no estilo da música flamenca.
Na passagem para 1990, Yui não teve como manter o mesmo fôlego. Mas a garra e a vontade com que ela cantava "Beat Up"_ uma das principais faixas de seu álbum daquele ano, o "Nude Songs"_ ainda mantinha acesa aquela chama poderosa do final dos anos 80. Àquela altura, mais importante do que a década já ser outra era a fase em que a música da Yui estava, e essa continuidade, ainda que menor, foi o último passo antes do que viria a ser a terceira etapa real de sua carreira_ para mim, a menos interessante. Álbuns ainda envolventes como "Miyako no Garasu", de 1991, já davam certeza de uma nova virada no estilo de Yui. Parecia difícil acreditar que músicas como "Koi no Upsade Town" e "Realism" eram de fato dela. Por mais que os vocais de apoio nessa segunda cantassem "I wanna get freedom", aquilo não tinha nada a ver com a menina-mulher libertária do "Melody Fair", pois já era pura música dos anos 90.
Esse disco foi seguido pelo decepcionante "Stay" (1992), onde Yui ousou com experimentos bastante radicais, como o uso de elementos da música country e litúrgica. Por "azar", foi desse disco que se projetou o single que mais marcou a fase madura da Yui: uma versão em japonês para a chatíssima "Luka", um hit trash que ainda ecoa pelas rádios do mundo todo na voz da intérprete original_ a cantora Suzanne Vega. De qualquer forma, é um duelo de 2X1_ até porque o mesmo mal acometeu outras cantoras da geração de Yui que, como ela, foram longe com suas carreiras. Mas, naquela altura, nada seria capaz de rebaixar, no presente ou no futuro, os louros colhidos por uma star como Yui-chan, a princesa fofinha de olhos mágicos que não teve receio de pedir por liberdade até virar mulher.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

7 boas razões para assistir Sharivan

Vamos direto ao ponto: com tantos tokusatsus novos carecendo de divulgação, por que justo uma série exibida na TV brasileira é tema de uma postagem como esta? Será que é válido enumerar razões para se conhecer algo que já foi amplamente discutido por vários fãs? Seria viável insistir no debate de um assunto que, aparentemente, está encerrado?
Tais questões denunciam o péssimo hábito que muitos tokufãs vêm cultivando, em minimizar a importância da difusão e da discussão sobre os tokusatsus que passaram em nossas emissoras. Como consequência, muitas de nossas mídias restringem visivelmente o já curto espaço de várias dessas produções_ algumas excelentes_ em suas matérias, resenhas e espaços de opinião. Sharivan é só um exemplo de toku que não merecia figurar entre essas vítimas. Escolhi-o como tema de uma publicação desse nível muito porque sei que um processo de divulgação consciente do tokusatsu só é completo quando considera todas as produções existentes. De preferência, sob uma mesma ótica. Muito além de qualquer rótulo, acredito que ainda há muito de novo (e de inédito) para ser dito sobre os seriados transmitidos no Brasil. Por isso, minha satisfação em criar postagens como esta dependerá de eu conseguir provar isso aos meus leitores. Se eu sentir que tive algum sucesso nessa empreitada, as "7 razões" poderão até permanecer como uma nova seção fixa aqui no blog. Para inaugurar este projeto, Sharivan foi, de fato, o melhor motivo que encontrei, já que ele é certamente um personagem com potencial para conquistar diferentes gerações de tokufãs.
Não falta quem testemunhe a qualidade de Sharivan. O colega Mauro Sérgio do Egito_ gerente do blog parceiro "Tokusatsus exibidos no Brasil"_ sentenciou seu ponto de vista com convicção: "Ele é meu (Uchuu Keiji) preferido". Já o amigo João Gabri-El_ manager do também parceiro "Interruptor Nerd"_ despejou elogios em quantidade suficiente para criarmos uma resenha paralela: "É uma série que merece ser vista. Ela é ótima para quem gosta de histórias densas (...), armamentos tecnológicos. Os combates são fantásticos e bem coreografados. A armadura (do herói) é marcante (visualmente), uma das melhores (já criadas pela) Toei. Mas nada (...) é mais 'fodástico' do que a luta conjunta de Sharivan e Gyaban (...) no episódio 51".
Demais motivos para se conhecer Sharivan podem ser conferidos na minha própria seleção, logo abaixo:

Comparações de qualidade entre Sharivan e Jaspion soam para mim como uma discussão já desgastada. Mas é quase um consenso que a saga do herói Den Iga representa o auge dos Uchuu Keiji. O subgênero, que inaugurou a franquia dos Metal Heroes, surgiu numa época em que os costumes estavam em transição. Conquistas recentes no núcleo dos efeitos especiais vinham gradualmente convertendo tramas de caráter investigativo em histórias cada vez mais fantásticas e mirabolantes. Mas mesmo mantendo-se firme a sua ideia inicial, Sharivan conseguiu administrar um roteiro envolvente e contemplativo.
Outro mérito desse roteiro diz respeito a continuidade me relação à Gyaban. Sobre ela, João Gabri-El opina: "(Sharivan) mantém características de Gyaban, mas não (como) cópia, e sim como (...) complemento". Nada que sirva de barreira aos iniciados, pois não é necessário conhecer a série do pioneiro em detalhes para só depois assistir a história do sucessor. Para tanto, basta ao espectador ter algumas poucas noções básicas do que foi visto no começo da trilogia.

A atuação apaixonada de Hiroshi Watari no papel-título contribui muito para ampliar a emoção que corre solta em todos os episódios. E nesse quesito, os brasileiros até levaram certa vantagem em relação aos japoneses. As maiores credenciais do ator à época do lançamento da série no Japão eram seus trabalhos como dublê_ que até então conferiam-no uma projeção modesta entre os orientais. Já entre os brasileiros, Hiroshi desembarcou com seu Sharivan na onda de grande prestígio que já havia obtido por seu papel do Boomerman de Jaspion_ exibido por aqui desde alguns anos antes. Na sua pele, Den Iga assume uma personalidade temperada, hábil em suportar as dificuldades com uma resignação seca e sempre focada na urgência da vitória.

Sharivan é um seriado para ser visto e pensado. A intensidade emotiva é tanta, mas tanta mesmo, que chega a ser desconcertante. É muito difícil para o espectador atento suportar um episódio inteiro_ qualquer que seja_ sem derramar nenhuma lágrima. Por consequências como essa, Sharivan tem lugar cativo no seleto grupo de tokusatsus com que eu cultivo intimidade.
Para quem deseja alcançar o mesmo nível de emoção que eu, neste caso, cabe uma recomendação: só assistir a série não basta. Fazer a corrente do pensamento participar do que se vê também ajuda muito. Se tomarmos a transformação "Sekisha" como exemplo, as sequências repetitivas e previsíveis do visual e da narração cansariam a paciência de qualquer um. Mas, se nos focarmos apenas na mensagem presente naquela sequência_ que, resumidamente, passa a ideia de um herói que se reveste com uma materialização da luz do sol para lutar_, nosso envolvimento se ampliará substancialmente.

Sharivan não foi o primeiro nem o último herói japonês cujos poderes estavam relacionados ao sol. O calor e o brilho do astro de maior importância para a Terra foi tema central também nas histórias de Kikaider 01, Kamen Rider Black RX e, mais superficialmente, Sun Vulcan. Dentre todos, Sharivan foi um dos poucos que buscou, desde o início, se apropriar dessa ideia de um modo diferenciado. Notemos como o Metal Hero não possuía qualquer cinto, capacete especial ou bracelete para se transformar. O único intermediador do clássico "Sekisha" era a nave Grand Bus, que gerava matéria a partir da captação da energia solar e só depois transferia ao protagonista.
Em outro grande momento, o sol ilustra com destaque o golpe final "Sharivan Crash", personificando as próprias vitórias de Sharivan. E até em detalhes menores, como na trilha sonora, sua lembrança é presente. A música "Spark! Sharivan" reproduz bem o tipo de mensagem que deve ser captada pelo espectador, no trecho como no trecho que diz "a vida queima como um raio de sol".

A utilidade do Grand Bus ia muito além da sua função como conversor de matéria para o "Sekisha" de Sharivan. As batalhas do guerreiro no interior da nave se somam aos grandes momentos do esquema cíclico de ação. A formação da Nave de Combate é um exemplo de instante que merece atenção redobrada_ mesmo que sua sequência já tenha sido decorada. Os disparos dos mísseis e do Canhão Plasma sonorizados por músicas como "Chou Jigen Sentou BokanGrand Bus" e "Strenght Is Love" projetam grande parte do gênio de Akira Kushida. Mais do que isso, eram passagens que serviam como vitrine de demonstração do novo estilo musical que surgia no tokusatsu, até hoje parte da memória afetiva de muitos fãs: "A trilha sonora ajuda a compor até a mística sobre os vilões", conclui João Gabri-El.

Hellen Bell foi um exemplo de guerreira determinada. E isso quando o gênero Metal Hero, engatinhando, nem sequer sonhava em dar um papel às mulheres na mesma luta de seus venturosos personagens principais.
A curta participação de Hellen na trama foi um laboratório importante para a representação feminina que o futuro traria através de Herbaira, Emiha e outras. Num cenário onde Lilly era a protagonista por excelência, Hellen foi incisiva o bastante para conseguir se destacar muito mais do que quem dispôs de uma série inteira para se desenvolver. Seu desejo de se auto-aprimorar após a morte do irmão Willy foi manifestado com impacto num diálogo com Sharivan, no fim do episódio 36.

Se por trás de toda grande série há um grande guerreiro, este só se cria com adversários à altura. Os Tokkyuger que me perdoem, mas enfrentar antagonistas que ofereçam dificuldade aos heróis é, desde sempre, essencial para que as vitórias sobre os mesmos tenham um mínimo de valor. Nesse aspecto, os vilões de MAD se sobressaem com louvor. Afinal, não é todo dia que se cria uma organização maligna que age através de habilidades psicofísicas e alucinógenas.
O "Mundo da Alucinação" é um espetáculo à parte. Mas não devemos esquecer de como o mesmo tema apimentou muitos outros fatos, como a perturbação da menina Sachiko Ozawa, no episódio 07, a saudade da garota Yuko Nakahara_ cujo espírito da mãe foi usado por um monstro, no episódio 43_ ou o drama criado sobre as falsas promessas de amizade vistas no episódio 12. 
Cruéis e impiedoso, os membros de MAD representavam a maldade explicitamente, tal como mandava a cartilha da época. O costume pode ter caído em desuso, mas as personalidades de Maoh Saiki, General Gailer e Dra. Porter inspiram antipatia até hoje. A reconstrução de Leider no movie "Super Hero Taisen Z", de 2013, evidencia em fatos um pouco desse raciocínio.